Beatriz Ramos | Psicologia
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Sobre viver à margem da vida

Em A hora da estrela, somos conectados à história de Macabéa, uma jovem que parece viver como quem ocupa a última fileira de um teatro. Ela assiste, mas quase não participa. Vive, mas não se reconhece vivendo.

Macabéa existe à margem de si. Falta-lhe linguagem para compreender o mundo — e para se compreender dentro dele. A vida passa por ela sem realmente tocá-la. Está na plateia, nunca no palco.

Os outros entram em sua cena com uma liberdade desconcertante. Podem feri-la, e ela não sabe nomear a dor. Podem enganá-la, e ela não sabe reivindicar verdade.

Seu apagamento não é escolha individual, mas efeito de uma história social que estreita possibilidades, sobretudo quando se é mulher. No horizonte histórico em que vivemos, muitas mulheres ainda são ensinadas a ocupar esse mesmo lugar: o da margem da própria vida.

Macabéa não foi ensinada a desejar, a questionar, a reagir. Antes mesmo de ser, sua existência já havia sido reduzida. Sem espelho, sem palavra, sem reconhecimento — como sustentar a própria presença no mundo?

E talvez essa seja a pergunta que a história nos devolve:

quantas vezes também assistimos à nossa própria vida sem nos sentirmos protagonistas?

Mas há algo que a literatura — e a clínica — nos lembram: a palavra pode inaugurar existência. Nomear a dor já é um gesto de presença. Reconhecer-se é um primeiro movimento de saída da plateia.

Se em algum momento você se sentiu à margem, saiba: protagonismo não nasce pronto. Ele se constrói. Às vezes começa pequeno — numa pergunta, num limite colocado, num desejo finalmente admitido.

Sempre é possível sair alguns passos da última fileira. E, ainda que timidamente, começar a ocupar o palco da própria vida.

Se este texto tocou algo em você, talvez seja um bom momento para conversar sobre isso.

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